Homenagens

ENFIM LEANDRA LEAL

Uma homenagem necessita de distância e de proximidade, de perspectiva e seletividade, de reconhecimento lógico e de engajamento crítico/afetivo. É nosso posicionamento curatorial, na Mostra de Tiradentes, em relação a Leandra Leal. A atriz poderia ter sido homenageada em edições anteriores, principalmente nos anos de exibição de Nome Próprio (2007), de Murillo Salles, seu ponto alto em matéria de intensidade física e dramática,  e do díptico O Rio nos Pertence (2013), de RicardoPretti, e Uivo da Gaita(2013), de Bruno Safadi, dois filmes realizados sob uma mesma produção, com uma mesma equipe e um mesmo elenco, nos quais a atriz não só esteve à frente das câmeras. Além dos três filmes, Leandra fez outras duas dezenas, trabalhando gerações distintas de diretores, como os veteranos Lima Jr, Paulo Cesar Saraceni (O Viajante, 1999) e Julio Bressane (Dias de Nietzsche em Turim, 2001), com o quase veterano Murilo Salles (Nome Próprio, 2007), com o então iniciante em longa Jorge Furtado (O Homem que Copiava, 2003) e com alguns valores revelados nos últimos 10 anos, como Safadi, Pretti, e Fernando Coimbra (Lobo atrás da Porta, 2013). Os diferentes níveis e gerações de autoralidades recentes estiveram em sua filmografia.

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Foto: Leo Lara/Universo Produção

 Leandra ainda não era nascida quando Helena Ignez, a outra homenageada da 20ª Mostra de Tiradentes, realizou seus filmes mais radicais, no começo dos anos 1970, sob a direção de Rogerio Sganzerla na produtora hiperativa e de fim precoce Belair. Em O Rio nos Pertence e O Uivo da Gaita, sua personagem tem de lidar com um emblema desse ambiente festivo e subversivo da Bel Air, Sonia Silk, protagonista de Helena Ignez no filme Copacabana MonAmour (1970). Se começou na televisão em meados dos anos 90, primeiro na série Confissões de Adolescente, logo depois na novela Explode Coração,  foi com A Ostra e o Vento (1997), de Walter Lima Jr, que nasceu a futura atriz de primeira linha. Com 13 anos, foi aprovada nesse vestibular para adultos, com sua presença suspirante, em trânsito metafísico e metafórico entre o despertar da sensualidade e a sensorialidade do imaginário, tendo a natureza (o mar, o vento, a área) como estímulo.

 Em 2016, aos 34 anos, além de ter sido a principal atriz na pele de uma evangélica viciada em trabalho de um filme em finalização, O Rei das Manhãs, estreia em direção de longa do também montador Daniel Rezende, também realizou seu primeiro longa como diretora, o documentário Divinas Divas, centrado nas trans cariocas Rogéria, Valéria, Jane Di Castro,Camille K, Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzio. Esse novo momento coincide com uma data redonda de Tiradentes, 20 anos, justamente o tempo de filmografia da atriz. Se na vida 20 anos é o auge da juventude, para uma carreira de atriz e para o percurso de uma mostra os 20 anos, longe de ser momento de estacionar ou apenas administrar o caminho percorrido, é o momento de maturidade. E a maturidade em um percurso pode ser sempre um renovado começo.

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HELENA IGNEZ

A MULHER DE SI

Em um momento no qual tanto se discute o espaço social da mulher, inclusive no cinema, Helena Ignez se impõe como memória e como presente. Memória desde o fim dos anos 50, no teatro e no cinema, primeiramente como (principalmente do companheiro Rogério Sganzerla), mais adiante também como diretora, sem nunca deixar de estar atriz, diante da câmera, com seu corpo circulante de energia mística, mítica e libidinal, não importa com qual idade, sempre em estado de performance. 

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Foto: Leo Lara/Universo Produção

A 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes escolhe Helena Ignez não apenas como uma das homenageadas do ano, mas também como nome de um prêmio a ser entregue, a partir da edição de janeiro de 2017, à uma mulher em alguma das funções da criação cinematográfica em algum longa ou curta presente nas mostras competitivas do evento (Mostras Aurora, Olhos Livres e Foco). Homenagem e prêmio são emblemas, mais que reconhecimento, porque, a essa altura da vida e da filmografia, Helena dispensa reconhecimentos. Precisa apenas - sempre - de espaço. Espaço para persistir e existir com sua liberdade indomável

 Poucas atrizes do cinema brasileiro - quiçá mundial - têm a noção de auto mise en scène de Helena. Ela não apenas parecer ser estimulada pela câmera como também aparenta estimular a máquina, fazendo com que os operadores tenham de se adaptar ao ritmo e movimento do corpo da atriz. É uma rara atriz que, na imagem, está de corpo inteiro, mesmo quando filmada em planos mais próximos. Mas há algo que, com os anos, se transformou em Helena, mais que a aparência: a voz. A vida e a experiência nos anos e nos filmes deram à atriz um entonação vocal de quem vive cada vez mais os sons das palavras. Estaremos em janeiro atentos para escutá-la.