Mostra Aurora começa nesta segunda-feira com exibição do filme mineiro “Baronesa”

Na segunda-feira, dia 23, começam as sessões da Mostra Aurora na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Às 19h30, no Cine-Tenda, o longa-metragem Baronesa (MG), de Juliana Antunes, abre a série de sete filmes inéditos de cineastas em começo de carreira que competem no Júri da Crítica. Este ano, o grupo avaliador é composto por Anita Leandro (RJ), Heitor Augusto (SP), Ivonete Pinto (RS), Luiz Joaquim (PE) e Victor Guimarães (MG). O mesmo júri também escolherá o melhor curta da Mostra Foco, que inicia as sessões às 22h30, no Cine-Tenda, com quatro filmes.

 Também na programação de filmes, a Sessão-Debate começa igualmente nesta segunda, com a exibição de Precisamos Falar do Assédio (SP), de Paula Sacchetta, seguido de bate-papo com a diretora no Cine-Teatro Sesi. Em paralelo, às 16h30, no Cine-Tenda, acontece a Mostra Panorama Série 3, com quatro curtas-metragens. Às 18h, no mesmo local, tem o longa A Destruição de Bernardet, dentro da Mostra Olhos Livres e com direção de Cláudia Priscila e Pedro Marques. No Cine BNDES na Praça tem curtas às 21h.

 Outra atração imperdível é o Encontro de Cinema com Ney Matogrosso e Helena Ignez, que participam de uma roda de conversa com o público do Sesc Cine-Lounge às 21h. A mediação será de Pedro Maciel Guimarães.

 No Seminário do Cinema Brasileiro, no Cine-Teatro Sesi, acontecem três encontros: às 11h, um bate-papo sobre o filme Os Incontestáveis, com o crítico convidado Fábio Camarneiro; às 12h15, uma conversa sobre Elon não Acredita na Morte, com a presença de Fabrício Cordeiro; e às 14h30, os Diálogos do Audiovisual com a temática “As Mulheres na Crítica: Cenário Brasileiro”, em que o coletivo Elviras, formado por jornalistas e críticas de cinema, apresentará seus trabalhos e um cenário da presença feminina nos estudos de filmes no país. Na mesa estarão Camila Vieira (RJ), Flávia Guerra (SP) e Ivonete Pinto (RS).

 REPRESENTAÇÃO E FEMININO

Nos primeiros debates da Mostra em 2017, realizados no sábado, discussões de curadoria, temática e representatividade vieram à tona, além do tributo às atrizes homenageadas Helena Ignez e Leandra Leal. Na primeira mesa, “Cinema em reação, cinema em reinvenção: questões de representatividade e de proposta estética”, o curador da Mostra, Cléber Eduardo, exaltou a forte presença feminina entre as diretoras de filmes selecionados para o evento. “Tivemos pouco mais de 20% de longas dirigidos por mulheres nas inscrições, mas ficamos com 40% entre todos os selecionados. Existe um dado importante nisso”, comentou, exaltando a expressividade estética dos trabalhos escolhidos.

 Cléber procurou detalhar a importância de se pensar o cinema para além do conteúdo e das relevâncias temáticas, estimulando a fricção com a forma que ele tentou estimular nos longas a serem exibidos. “Não se pode aceitar apenas o tema correto, o tema oportuno, o tema do momento, e sim buscar a melhor forma, pela maneira de se abordar esses temas, de uma reflexão formal”, comentou. “Não existe um caminho para isso, é questão individual de cada criador, mas é um compromisso do criador entrar nesses desafios."

 A pesquisadora Patrícia Mourão reforçou o coro, reivindicando a necessidade de se vencer as barreiras impostas pelo machismo em muitos estudos de cinema do passado. Ela contou reconhecer a presença de algumas poucas mulheres na produção experimental norte-americana analisada por ela na universidade, mas que essa história foi contada pelos homens, e estes omitiram várias daquelas realizadoras. Por sua vez, o crítico Heitor Augusto reforçou a importância de desnaturalizar alguns lugares-comuns em relação a minorias e grupos excluídos e trazer os incômodos à superfície. “No nosso dia a dia assistimos a poucos filmes dirigidos por esses 'seres históricos e à margem', especialmente negros e mulheres”, disse.

 Na conversa em celebração a Helena Ignez e Leandra Leal, os críticos Ruy Gardnier e Daniel Schenker relacionaram a trajetória das duas em pontos em comum – especialmente na questão da autoralidade no trabalho de ambas e no uso do corpo como elemento essencial da presença em cena. Citado várias vezes, o longa A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla e protagonizado por Helena, foi apontado como fundamental no entendimento de uma nova forma de ser atriz. “Foi a primeira revolta feminina não ortodoxa e pelo direito de ser estranha e fora da ordem”, disse ela.

 Leandra Leal, que emulou Helena Ignez num projeto coletivo de 2013 intitulado Operação Sônia Silk (o nome é referência à personagem de Helena em Copacabana Mon Amour, em 1970), disse que a ideia era revalorizar a liberdade de pensamento e de atitude característicos dos trabalhos daquela época. Sobre Divinas Divas, sua primeira experiência na direção, Leandra contou ter sido uma experiência de redescoberta de si mesma. “Eu sempre tive desejo de dirigir e esse filme me deu oportunidade de falar sobre como cada um tem que ser aquilo que tem vontade de ser”.